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Memórias: o imenso esquecimento

Título: Memórias: o imenso esquecimento

Autor: Diego Braga

Sinopse: COMEMORAÇÃO DO ESQUECIMENTO? Igor Fagundes (poeta e professor da UFRJ) Um livro de memórias há de verter-se na espera ou esperança de virar a memória de um livro. Resta-nos, assim, escrever o que nos restar deste encontro. Deixar que nas linhas se inscreva a língua do que não se terá perdido, cedido à despedida do esquecendo-se. Inscrever o pó descoberto no encoberto das dobras, encardido nas quinas e com o qual forjaremos não o arquivo de alguma ruína, mas a alquimia do que se recusa a ruir porque rascunha um diálogo sempre novo. Entretanto (no tanto que há entre nós e o livro; entre nós e nós mesmos; entre um livro e si mesmo), o que não se perde nem se terá perdido será nunca um resto, um rastro, se, também, os vestígios de ontem vão-se na vertigem do agora; se o agora se vai no além-muro do futuro, igualmente, vertiginoso. Sem chance de perder-se jamais no movimento de lembrar, anuncia-se ele, o próprio esquecimento, este impróprio – porquanto i.menso – a designar, sim, o que sobra. Ele, a sobra, o excesso de todo encontro: “Comemorando o que se esquece, / encanta o ar que, vivo, inspiro. / É alento em fuga, um canto esquivo”. Nesta e desta abertura (desta fuga que não tira: dá), o gesto de memorar se faz junto a e, na graça de tal encruzilhada, a palavra comemoração se profere quando corpo finalmente (em nós, entre nós) sentido; dito por ter sido nobremente ouvido. Diego Braga constitui aqui ali assinatura em esquecimento ou do esquecimento, na instância em que, na condição de nomeação de um poeta, se doa à memória das outras tantas que, em seu lugar, proporcionam-lhe o lugar, porquanto todas divinadas – adivinhadas – por aquela Nenhuma que, em nome de tudo, renuncia – “O canto em cuja voz sou nada / além de um canto que me cria / é um canto-deus, seu templo e prece”. Apenas esquecido, Diego Braga pode ser comemorado no ritual em que, criador do que o cria, passa a um criado; à condição de uma obra-de-arte em que poema e poeta, não sendo causa ou efeito um do outro, esquecem-se a si próprios para comemorar a força de sua conjunção: a poesia, única autoridade – “canto-deus” – a partir da qual coisa alguma se torna alguma coisa, por dar poder de comando (de palavra) ao silêncio e tornar cada verbo advindo obediente ao tino de emudecer. Diríamos de outro modo: por ser o poético, do esquecimento, a força de memória e vice-versa, na dialética sem síntese do viver-morrer, “poema casa / ensinando-lhe a ver que o abismo / é a inspiração da ponte”. É neste sentido que o nome do poeta – Diego Braga – vive da própria morte. É neste sentido que o poeta morre para dar vida e livro aos seus mortos. É neste sentido que eles se encontram livres para não morrer. É neste sentido que o livro iminente de nascimentos se faz cultivo e culto do que (não!) morre no elogio de uma fala eterna. É neste sentido que a memória poderá falar eternamente na e como a voz cuidadosa dos mitos. É neste sentido que ela admite sentidos muitos. É em todos estes e aqueles sentidos abertos por sua vertigem que Memórias: o imenso esquecimento configura um livro mítico por excelência, a lembrar-nos de que o tônus e a vibração do signo linguístico provém de seu reencontro com o que é palavra para aquém e para além de toda abstração gráfica. Com o que é, para aquém e para além da representação, o apresentar de um corpo sonoramente vivo, em consonância e ressonância com outros, e cujo maestro ou regente é o silêncio – a pôr-se mais do que entre os músicos (os intérpretes, os executores, os compositores): sobretudo entre a – e dentro da – música em que culmina a festa dançante do som. A destinação poética – porquanto humana – do viandante Braga só constitui uma decisão pessoal quando ele já se dispôs a ouvir o chamado impessoal, ou transpessoal, ou divino, do próprio silêncio – do próprio terra-e-céu no decorrer do monte-casa que, entre um e outro, é lugar de ambos (e onde ambos podem acontecer assim, de novo: como um lugar). A resposta a este apelo é o próprio ímpeto de caminhar e habitar (ouça-se: de perguntar; leia-se: de poetar, escrever) na piedade de senti-lo (ouvi-lo, procurá-lo, percorrê-lo). À pronúncia deste caminho como diálogo chamamos sentido, oferta do i.menso da terra e do céu às dimensões que demanda a linguagem. Terra-e-céu fazendo-se sentido, ganhando direção, caminhada, eis isto: a linguagem, o monte, o homem, o poeta de Memórias: o imenso esquecimento. O movimento que salvaguarda o aberto da realidade em espaços e tempos (dimensões!) possíveis é este em que, na graça da linguagem, o esquecimento – na condição do imenso: do infinito céu, bem como do abismo da terra – pode doar memória. Corpo ao sagrado. Em uma palavra: divindade. Obra das musas em Diego, este livro não consiste, então, em espécie alguma de memorialismo. Nele, não há a abstração de um eu lírico, mas a concretude lírica de uma voz que intenta cantar a vida que doa todas as vidas, a deusa da Memória de todas as memórias, e não o biografismo, a narrativa egoica – voluntariosa ou inconsciente – da lembrança, ao modo dos que convertem o tempo em objeto do homem, como se este, em algum momento (frise-se a contradição), pudesse estar fora daquele para objetá-lo. E como se também o sujeito já não fosse a objetivação do que, no homem, se (des)encontra sendo, por ser e, portanto, alheio à etereografia da subjetividade. Provisória ou definitiva, mutante ou permanente, mas – na monarquia do “ou” e não na anarquia do “e” – ainda e sempre subjetividade x objetividade. Deslocada da bitola que forja no corpo anímico um dentro e um fora, nenhuma biografia aqui é possível, porque, para contar a sua história e falar da sua interioridade, o poeta teria de historiar todas as pessoas e coisas e estâncias (exteriores?) que passaram pela sua vida, que a construíram junto com ele, bem como daquelas que, não passando, também fizeram com que culminasse no que é e ainda poderá ser caso, adiante, cruze com elas. Se o que permanece em todo viver que se outra é a morte (o esquecer necessário para que vida se faça presente), o poeta trai, num livro de memórias, tudo o que for (fidelidade ao) passado. Fiel a ele, precisaria não ter esquecido nada do que viveu; precisaria, sobretudo, não ter a experiência deste agora; não ser o outro que é no momento da lembrança e da escrita. O que passou não volta. Se assim parece, é porque não passou, está presente. Perseverança e transmutação do que não se esquece, do que não passa, a memória é sempre e o sempre da criação; sempre e o sempre da comemoração do esquecimento como impulso para a pulsação genesíaca das palavras: o imenso silêncio. - Igor Fagundes

Contexto da obra

Quando a classificação é mais ampla, o contexto do livro costuma depender ainda mais de autoria, tema e edição. “Memórias: o imenso esquecimento”, de Diego Braga, publicado pela editora Edição do Autor, em 2010 e com 2010 páginas, integra a categoria Livros Variados. Por isso, autoria, edição e tema acabam tendo ainda mais peso na forma de apresentar o livro.

Editora: Edição do Autor

Páginas: 2010

Ano: 2010

Edição:

Linguagem: português

ISBN: 8591112105

ISBN13: 9788591112104

    Sobre a editora

    Os livros da editora Ediçao do autor apresentam um perfil editorial que privilegia narrativas densas e variadas, com forte presença de temas ligados à história local, esportes e questões sociais. A experiência de leitura costuma alternar entre relatos biográficos, crônicas e romances que exploram realidades humanas complexas, como comunidades marginalizadas e trajetórias pessoais marcadas por desafios. O tom varia do poético ao investigativo, passando por textos que mesclam emoção e análise, com ritmo que pode ser tanto contemplativo quanto tenso, dependendo do tema. O catálogo sugere uma atenção especial a histórias que trazem à tona memórias culturais, esportivas e religiosas, além de obras que abordam o autodesenvolvimento e a crítica social.

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