
Título: Autonomia e Educação em Emmanuel Kant e Paulo Freire
Autor: Vicente Zatti
Sinopse: O interesse em pesquisar o tema autonomia e educação tomando como referência Immanuel Kant e Paulo Freire surgiu a partir da constatação de situações do meio escolar e social atual que levam a ou se caracterizam como situações de heteronomia. Destaco dentre essas situações a forma como grande parte dos alunos desenvolvem uma capacidade de compreensão insuficiente, se mostram arredios à leitura, seguem a moda irrefletidamente, apresentam dificuldade em pensar por conta própria e discutir criticamente os assuntos que envolvem, inclusive, seu cotidiano. A nível social destaco a estetização do mundo da vida que leva ao individualismo, à indiferença com o humano, à irresponsabilidade, à massificação e a conseqüentes formas de pensar e agir homogeneizados, não autênticos e autônomos. Além disso, a razão instrumental promove hoje a colonização de diversas esferas do mundo da vida, gerando uma sociedade em muitos aspectos desumanizante e irracional, que prioriza o econômico em detrimento do humano. A realidade social permeada pela estetização, pela racionalidade instrumental, e que se caracteriza como sociedade de massa, ecoa diretamente sobre a educação. Os modelos educacionais elaborados a partir de um pensamento tecnicista-instrumental não abordam a educação em sua totalidade formativa, se mostrando, portanto, insuficientes na formação do educando enquanto homem e cidadão. Dessa forma, sociedade e escola acabam gerando um ser humano incapaz de formular juízos próprios e autônomos, incapaz de pensar certo, como diz Paulo Freire, tanto no nível de conhecimento como em nível moral. Permanecem as pessoas, então, dependentes e determinadas por pensamentos, normas de conduta, ideais, projetos que não são seus, normalmente “impostos” pelos meios de comunicação ou pelo senso comum vigente. E a determinação passiva do sujeito pelo que lhe é externo é heteronomia. A autonomia supõe que o sujeito seja capaz de fazer uso de sua liberdade e determinar-se.4 Além do acima exposto, as condições sociais desfavoráveis como pobreza, miséria, favelamento, em que grande parte da população brasileira vive, são elementos que dificultam e até impossibilitam a autonomia. Em geral a pobreza econômica condiciona a uma situação de pobreza cultural, o que dificulta e limita o exercício autônomo da cidadania, pois, privados de boa formação, não conseguem estabelecer-se como sujeitos no contexto social por não terem condições iguais de intercomunicação e não terem condições iguais para disputar as oportunidades, inclusive de emprego. As condições sociais desfavoráveis limitam o poder ser autônomo, tendo em vista que a autonomia engloba tanto a liberdade de dar a si os próprios princípios, quanto a capacidade de realizar os próprios projetos. Por isso, pensamos que é papel da escola promover uma educação que leve o educando a pensar livremente e, também, capacitá-lo para realizar os projetos que estabelece para si. Mas por que estudar Kant e Paulo Freire para iluminar essa problemática? Quem definiu o conceito de autonomia na modernidade e fez dele um conceito central em sua teoria foi Kant. Nesse ideal viu o fundamento da dignidade humana e do respeito, o que foi central para o desenvolvimento dos sistemas legais, dos sistemas educacionais e da sociedade moderna como um todo. A concepção kantiana de liberdade como autodeterminação influenciou muito a educação e o modelo escolar criado a partir da modernidade. Mas para entendermos melhor a concepção de autonomia de Kant, veremos também a concepção de autonomia defendida pela filosofia de sua época, o iluminismo. Paulo Freire traz uma contribuição extremamente importante para a educação, especialmente de países em que situações de opressão são características marcantes, como é o caso do Brasil. Ele formulou uma proposta educacional que procura transformar o educando em sujeito, o que implica na promoção da autonomia. Seu método propõe uma alfabetização, uma educação, que leve à tomada de consciência da própria condição social. A conscientização possibilitaria a transformação social, pela práxis que se faz na ação e reflexão. Teríamos, então, um sujeito emancipado de uma condição social opressora. Em Freire, a libertação das heteronomias, normalmente impostas pela ordem sócio-economica-educacional injusta e/ou autoritária, é condição necessária para a autonomia. As propostas de Kant e Freire possuem em comum uma aposta esperançosa na humanidade, no potencial humano de fazer-se melhor e construir um mundo melhor. A questão que se coloca nessa obra é refletir sobre as possibilidades de as concepções de educação para a autonomia de Immanuel Kant e Paulo Freire iluminarem uma educação que vise formar para a autonomia hoje, uma educação capaz de formar para a superação das heteronomias do nosso tempo. No primeiro capítulo, faço a definição do conceito de autonomia e uma exposição da compreensão de autonomia de alguns pensadores ao longo da história. No segundo capítulo, procuro demonstrar o contexto filosófico do iluminismo no qual o pensamento kantiano se desenvolveu, definir a concepção de autonomia dos iluministas e demonstrar contra quais heteronomias se colocam, demonstrar que a concepção de autonomia dos iluministas é considerada heteronomia por Kant, demonstrar porque no pensamento de Kant há a centralidade dos conceitos de autonomia e razão prática, identificar contra quais heteronomias Kant se coloca. Ainda no segundo capítulo, analiso os aspectos da pedagogia kantiana relacionados com o problema da educação para a autonomia. O terceiro capítulo procura analisar contra que heteronomias Paulo Freire se opõe, o que será feito partindo de temas como opressão, massificação, medo da liberdade, colonialismo, invasão cultural, prescrição, sectarização, irracionalismo, ação antidialógica, concepção bancária de ensino, neoliberalismo, ética de mercado. Também coloco aspectos da atualidade da questão heteronomia. O quarto capítulo se debruça sobre a concepção de educação para a autonomia em Paulo Freire procurando analisar como devem ser as relações professor/aluno e as relações sociais para a promoção da autonomia, analisar a concepção antropológica e social freireana bem como suas implicações em uma educação para a autonomia, demonstrar a conscientização e a educação dialógica como necessárias para a libertação e gestação da autonomia. O quinto capítulo procura comparar Freire e Kant estabelecendo confluências e dissonâncias, destacar aspectos de ambos que auxiliam na problemática atual e, a partir de ambos os autores, analisar a educação enquanto formação política, ética e estética e suas implicações com a autonomia. Essa obra não pretende ser um manual prático que oriente procedimentos para a educação que vise à autonomia, pretende ser um trabalho teórico que pensa aspectos de uma educação que forme para a autonomia hoje a partir de Kant e Freire. Ao tratarmos do tema autonomia, sabemos que uma autonomia absoluta da forma como foi pensada na modernidade não é possível. As estruturas sociais, o contexto no qual estamos imersos, a debilidade da razão que possui seus limites, a nossa constituição racional intersubjetiva impedem uma autonomia absoluta. Mas defendemos a possibilidade da emancipação do homem para a vivência da condição humana e liberdade, a fim de poder determinar sua própria vida autonomamente. E a educação possui papel central na formação desse homem capaz de desvencilhar-se das heteronomias e fazer a si e ao mundo com autonomia.
Contexto da obra
Quando a classificação é mais ampla, o contexto do livro costuma depender ainda mais de autoria, tema e edição. “Autonomia e Educação em Emmanuel Kant e Paulo Freire”, de Vicente Zatti, publicado pela editora EDIPUCRS, em 2007 e com 83 páginas, integra a categoria Livros Variados. Por isso, autoria, edição e tema acabam tendo ainda mais peso na forma de apresentar o livro.
Editora: EDIPUCRS
Páginas: 83
Ano: 2007
Edição:
Linguagem: português
ISBN: 8574306568
ISBN13: 9788574306568
Sobre a editora
Os livros da editora Edipucrs apresentam um perfil que combina rigor acadêmico com acessibilidade, frequentemente explorando temas que cruzam fronteiras disciplinares. A experiência de leitura varia entre obras que problematizam questões éticas e sociais, como o tratamento moral dos animais, e outras que abordam debates contemporâneos em educação, saúde, história e ciências humanas. O catálogo indica um interesse por textos que dialogam com o leitor atento, seja por meio de reflexões filosóficas, análises históricas ou propostas pedagógicas que valorizam a interdisciplinaridade. Em alguns casos, a linguagem é clara e evita jargões, facilitando o acesso a temas complexos, enquanto em outros o tom pode ser mais denso e detalhado, exigindo maior envolvimento do leitor.
