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...e o labirinto virou cordão.

Título: ...e o labirinto virou cordão.

Autor: Maria Ceu

Sinopse: Maria Ceu chama os leitores a se conectar com a força feminina, em corpo, alma, ancestralidade e caminhos rumo ao futuro… Poemas, poesias

Contexto da obra

Quando a classificação é mais ampla, o contexto do livro costuma depender ainda mais de autoria, tema e edição. “…e o labirinto virou cordão.”, de Maria Ceu, publicado pela editora Livreditora, em 2025 e com 104 páginas, integra a categoria Livros Variados. Por isso, autoria, edição e tema acabam tendo ainda mais peso na forma de apresentar o livro.

Editora: Livreditora

Páginas: 104

Ano: 2025

Edição:

Linguagem: português

ISBN:

ISBN13: 9786585263092

    1 Comment

    • Maria Santiago
      Posted at

      Há livros que contam uma história. Outros registram uma trajetória. E há aqueles que fazem algo mais raro: transformam a própria experiência de viver em linguagem. É nesse território que se inscreve “…e o labirinto virou cordão.”, livro de estreia da poeta Maria Ceu.
      O título, grafado intencionalmente com reticências no início e ponto final ao término, funciona como uma chave de leitura da obra. As reticências sugerem uma história que começou antes da escrita; o ponto final assinala não um encerramento, mas a elaboração de uma travessia. Entre um e outro, a poesia de Maria Ceu tece os fios que transformam experiência em sentido. O livro parece nascer justamente desse espaço: entre aquilo que ainda não foi dito e aquilo que finalmente pode ser nomeado.
      Construída ao longo de mais de duas décadas de escrita, a obra reúne poemas que não obedecem à lógica da cronologia, mas à da travessia. O que se apresenta ao leitor não é uma autobiografia em versos, e sim uma cartografia sensível da experiência humana a partir do olhar de uma mulher que atravessa silenciamentos, descobertas, perdas, afetos, desejos e reinvenções. Embora profundamente enraizada em uma vivência singular, a poesia de Maria Ceu alcança uma dimensão coletiva, permitindo que muitas leitoras — e leitores — reconheçam ali fragmentos de suas próprias jornadas.
      O título também anuncia a principal operação simbólica da obra. O labirinto, figura recorrente das buscas humanas, aparece não como lugar de aprisionamento, mas como espaço de transformação. Ao longo dos poemas, aquilo que inicialmente parece dispersão, dúvida ou desencontro converte-se em fio. E o fio, por sua vez, torna-se cordão: vínculo, memória, ancestralidade, conexão. O percurso importa tanto quanto a chegada.
      A escrita de Maria Ceu transita com naturalidade entre o íntimo e o universal. Seus poemas são atravessados por imagens que evocam o corpo, a terra, a água, os sonhos, a infância, os afetos e as múltiplas experiências do feminino. Há uma atenção delicada aos pequenos acontecimentos da vida, mas também uma consciência aguda das estruturas que historicamente tentaram limitar a voz das mulheres. Sem assumir um tom panfletário, a autora faz da própria existência um gesto político, revelando que narrar a si mesma pode ser também uma forma de resistência.
      Outro aspecto marcante da obra é a presença do desejo. O amor e o erotismo aparecem não como temas acessórios, mas como forças criadoras, capazes de reorganizar a percepção do mundo. Nesses poemas, o desejo é linguagem, descoberta e movimento. É também afirmação de liberdade.
      A musicalidade dos versos merece destaque. Maria Ceu demonstra grande sensibilidade para o ritmo, para a construção imagética e para o uso de repetições e sonoridades que aproximam muitos poemas da oralidade. Em diversos momentos, a leitura produz a sensação de escuta, como se os textos pedissem voz, corpo e presença para se realizarem plenamente.
      Talvez uma das maiores qualidades de “…e o labirinto virou cordão.” seja sua recusa às respostas definitivas. O livro não oferece fórmulas para viver nem conclusões fechadas sobre a existência. Em vez disso, convida o leitor a caminhar, a habitar perguntas e a reconhecer que os caminhos mais importantes raramente são retos.
      Ao final da leitura, fica a impressão de que o cordão anunciado no título não pertence apenas à autora. Ele se estende até quem lê, ligando experiências, memórias e afetos. E é justamente aí que reside a força desta obra: na capacidade de transformar uma voz singular em encontro.
      “…e o labirinto virou cordão.” é um livro sobre travessias, mas, sobretudo, sobre a delicada arte de tecer sentido a partir dos fios dispersos da vida. Uma estreia madura, sensível e profundamente humana.

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