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O Patrão

Título: O Patrão

Autor: Euclides Neto

Sinopse: Mais por preconceito que leitura detida, é hábito supor-se que a literatura de intervenção social, aquela que põe em cena o mundo dos explorados e ofendidos, que se costumou, não sem uma certa má vontade, chamar de literatura engajada, reduz-se ao episódico, com personagens rasas, agindo não por elas próprias, mas em função da ideologia do seu criador. Pode até ser que seja assim com quem faz literatura pensando mais em ideologia do que em arte — e aí estaríamos diante da empulhação no sentido mais estreito que o termo possa ter, pois nada mais danoso à literatura que fazê-la serva de propósitos a ela estranhos. E a ideologia é um corpo estranho à literatura, porque o objetivo desta é oposto ao daquela: enquanto a primeira escamoteia verdades porque crê única a sua, a segunda as revela com a força detonadora da metáfora, que lança estilhaços de sentido em todas as direções, sobretudo em direção à própria ideologia. Quem quiser ver esse processo de perto, de a literatura sobrepujar a ideologia, não deve deixar de ler esta pequena e notável novela de Euclides Neto. Embora estejam aí todos os ingredientes da literatura engajada — o patrão explorador, o empregado humilhado, o líder sindical —, tais elementos funcionam mais como pontos de partida do que como pontos de chegada, pois as personagens, de tipos sociais no começo, pouco a pouco se individualizam, ganhando vida própria e verniz psicológico. E tudo feito com tal consistência que faz o leitor esquecer-se de que se trata de literatura de denúncia social, tal o mergulho no interior das personagens, coroado, no final do texto, por um clima denso de fantasmagoria que as envolve, fundindo limites do real e do sonho, melhor dizer, do pesadelo. E assim acompanhamos o drama do vaqueiro Tomaz, que, depois de dar um tiro no patrão para não ser denunciado por roubo, humilhação que não cabe em sua ética, tortura-se em angústia e remorso ante o quadro por ele criado. Remorso e angústia que só fazem crescer ante a resistência física do patrão que se recusa a morrer, o que leva Tomaz a uma encruzilhada mental, resolvida no plano da narrativa — e só assim poderia ser feito — através do recurso do fluxo de consciência. E acompanhamos também o drama do patrão, a arrastar-se pelas brenhas da mata, já sem distinguir entre a realidade e a fantasia, qual um zumbi, à espera de uma solução que não virá. Dois corpos (e duas mentes) dilacerados, cada um a seu modo. Literatura engajada é assim. É aquela que trata tanto dos foras quanto dos dentros da gente, eis o que ensina Euclides Neto nessa grande novela pequena. É ler para ver. Francisco Ferreira de Lima, Prof. UEFS.

Contexto da obra

Quando a classificação é mais ampla, o contexto do livro costuma depender ainda mais de autoria, tema e edição. “O Patrão”, de Euclides Neto, publicado pela editora Edufba, em 2013 e com 107 páginas, integra a categoria Livros Variados. Por isso, autoria, edição e tema acabam tendo ainda mais peso na forma de apresentar o livro.

Editora: Edufba

Páginas: 107

Ano: 2013

Edição:

Linguagem: português

ISBN: 8523210806

ISBN13: 9788523210809

    Sobre o autor

    A leitura dos livros de Euclides Neto leva o leitor a um universo marcado pelo contraste entre o rural e o urbano, onde o cotidiano da zona do cacau na Bahia ganha voz em narrativas que oscilam entre a simplicidade da fala popular e a densidade das questões sociais. A prosa varia entre o direta e despojada, com diálogos ricos em variantes linguísticas, e momentos de reflexão mais elaborada, especialmente na construção de personagens que se afastam do estereótipo social para ganhar individualidade. O ritmo pode ser tanto contemplativo, ao explorar a cultura local e os detalhes do trabalho no campo, quanto tenso, ao revelar as desigualdades e conflitos de classe que permeiam essas comunidades. A experiência de leitura é marcada por uma tensão subjacente entre a denúncia social e a busca por humanidade, sem cair na armadilha da mera ideologia. Em meio a isso, o humor e a sátira aparecem para dar leveza e complexidade às relações familiares e sociais. No catálogo, os livros de Euclides Neto oferecem uma imersão que desafia o leitor a pensar sobre o lugar do trabalho, da terra e das pessoas na história e na cultura brasileira.

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    Sobre a editora

    Os livros da editora Edufba apresentam uma experiência de leitura marcada pela diversidade temática e pelo rigor acadêmico, que se traduz em obras que transitam entre a análise histórica, a reflexão cultural e a investigação social. O catálogo reúne desde narrativas que valorizam a cultura regional, como a vida rural e festas populares, até estudos críticos sobre temas como direito, economia e linguística. A linguagem varia entre o acessível e o técnico, com textos que ora privilegiam o diálogo e o relato, ora a exposição teórica e metodológica, oferecendo um ritmo que pode ser tanto contemplativo quanto didático. Essa variedade sugere um público leitor interessado em aprofundar conhecimentos em áreas específicas, sem abrir mão de abordagens que dialogam com a realidade local e contemporânea.

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