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Olhos contados: Contos

Título: Olhos contados: Contos

Autor: Silvia Argenta

Sinopse: Por vezes, frutos suculentos escondem larvas, texturas indesejáveis ou um amargor esquisito por dentro, que se espalha pela boca quando já é tarde demais. Tal característica, que une o irresistível ao invasivo, também parece se aplicar a Olhos Contados, estreia de Silvia Argenta na prosa. Ao longo de 19 contos, a autora nos apresenta situações que, em sua superfície, são singelas e quase banais, e na medida em que a trama avança, amplificam uma atmosfera pouco acolhedora, que delineia com sutileza o que se esconde de estranho e aterrador nas situações abordadas, efeito este maximizado por uma escrita sóbria e econômica. Esta dialoga com a crônica em alguns momentos, alimentando no leitor o gosto pelos pequenos sadismos do cotidiano. O resultado disso é o entrelaçamento entre espanto e humor, como bem vemos nos contos “Vacilo de polaca” ou “Eclipse no Bloco Bicharada”. Ao delinear situações nas quais os incômodos crescem gradualmente, Silvia Argenta atiça uma curiosidade mórbida no leitor e brinca com suas expectativas. Em Olhos Contados, é aparente que os núcleos de suas narrativas — a família, os melhores amigos, as vizinhanças — apresentam rachaduras silenciosas que, antes de implodir suas estruturas, desgastam-nas sem pressa. A imagem do véu de noiva que vai “virando uma gosma de tecido” ao contato com a chuva em “A lenda da noiva fantasma” é, nesse sentido, emblemática para descrever essa característica do livro: ele é repleto de dinâmicas que tendem à desintegração, seja quando pende ao realismo ou ao absurdo, como bem vemos na relação entre a avó curandeira e a neta acamada em “Olhos de guaraná” ou entre a mãe rígida e a filha irrequieta em “Métrica”. Há também contos que pincelam possibilidades de resolução pelo extremo. Temos isso no desfecho insólito de “Chuva de cuspes” e em detalhes como a mágoa expressa por uma dentista em meio ao ensurdecedor som das brocas enquanto atende a melhor amiga em “A modelo do scarpin”. A excitação pelo pior se coloca como ponto forte dessas narrativas, e através disso, ameaçando a todo momento revelar mais sobre o próprio leitor do que ele supunha, efeito esse amplificado pelo contraste com narrativas tocantes como a de “A garagem que não guardava carro”. O resultado dessa mistura entre o mórbido e o banal, o extremo e o delicado é um livro cuja unidade é difícil de definir, mas também de resistir.

Contexto da obra

Quando a classificação é mais ampla, o contexto do livro costuma depender ainda mais de autoria, tema e edição. “Olhos contados: Contos”, de Silvia Argenta, publicado pela editora Urutau, em 2024 e com 100 páginas, integra a categoria Livros Variados. Por isso, autoria, edição e tema acabam tendo ainda mais peso na forma de apresentar o livro.

Editora: Urutau

Páginas: 100

Ano: 2024

Edição:

Linguagem: português

ISBN: 6559007871

ISBN13: 9786559007875

    Sobre a editora

    A experiência de leitura dos livros da editora Urutau revela um mergulho em textos densos, que transitam entre a poesia e a prosa, com forte presença de temas como a condição humana, relações afetivas complexas e a busca por sentidos em ambientes cotidianos ou simbólicos. O catálogo privilegia narrativas que exploram tensões internas, seja na intimidade da vida familiar, na investigação de mistérios urbanos ou na reflexão sobre identidades e memórias. A linguagem costuma ser elaborada, ora poética e simbólica, ora marcada por uma crueza direta, convidando o leitor a uma leitura atenta e contemplativa. Há obras que dialogam com o corpo, o desejo e a palavra, enquanto outras se apoiam em personagens femininas que desafiam estereótipos e enfrentam conflitos profundos.

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