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Aponto meu lápis com faca

Título: Aponto meu lápis com faca

Autor: Socorro Nunes

Sinopse: Muitas coisas me diz uma nódoa; tantas e tão peculiares que posso, liberto da marcação do relógio, confabular com meus pensamentos intranquilos a respeito dela, por um tempo alongado. O que vi em minhas andanças no encalço daquelas pessoas, capturadas pela escritora habitante de Morada Velha, foram nódoas indeléveis. Cada uma dessas criaturas — predominantemente mulheres — têm corpo e alma marcados como se fossem, estes, meros tecidos, estampas à mercê de um desenho intruso, que se intromete na cor do pano, infecta sua feitura, infiltra-se em seus fios e passa inexoravelmente a fazer parte da estrutura daquela veste. Mimetiza-se, incorpora a nódoa. A compulsão pela roupa quarada, esfregada, lavada; o afã de enterrar a cabeça pescoço adentro, sepultando-a sob o peso de incontáveis latas d’água; ter de aguar flores e frutos; obrigar-se na umidificação da vida que persevera seca (tudo) agrupa-as num estigma. Ceifadas por tão cruel gestual, entontecidas por turvos pensamentos, velarão o próprio corpo murcho, desfiarão todas as contas do rosário na intenção de um espírito exangue e, ocupadas, nem se dão conta de que o castigo foi aceito por elas; cumprem-no como se Sísifos fossem, empurram sua pedra penitencial montanha acima, apenas para vê-la rolar montanha abaixo, condenadas que foram à execução de um trabalho extenuante e improfícuo. Mas Sísifo cresce, volta a ser Sísifo, a ter sede de si mesmo, dentro dos acanhados minutos em que desce para tornar a subir, Sísifo, senhor desse tempo ínfimo, pensa; diz-nos Camus. Essas mulheres daqui negam-se ao próprio pensar, desperdiçam esses pingos de tempo, em favor da pedra, pela pedra. Dão-se à secura indizível e constroem uma solidão inimiga. Derrotar lonjuras, no entanto, ainda é preciso, aqui e acolá, vencendo-as, abrindo caminhos propícios aos grãos desabitados de gorgulhos, por certo seu homem e sua prole apreciarão. Chegará o tempo imponderável, aquele, do respeito, da devoção à perenidade da nódoa; será providencial que ela, a nódoa, persista, desta forma, à medida que for cautelosamente esfregada, poderá dizer-lhes onde, de que fato, em que esconderijo nasceu. É bom tocar a pedra ladeira acima, ainda mais ocupar-se no rolar da pedra ladeira abaixo; garantir a excelência do cumprimento do castigo. Daí, mesmo quando acontecer de partirem, não partirão deveras, essas nossas mulheres. Lá fora, carregarão Morada Velha às costas.

Contexto da obra

Quando a classificação é mais ampla, o contexto do livro costuma depender ainda mais de autoria, tema e edição. “Aponto meu lápis com faca”, de Socorro Nunes, publicado pela editora Urutau, em 2025 e com 112 páginas, integra a categoria Livros Variados. Por isso, autoria, edição e tema acabam tendo ainda mais peso na forma de apresentar o livro.

Editora: Urutau

Páginas: 112

Ano: 2025

Edição:

Linguagem: português

ISBN: 6559008592

ISBN13: 9786559008599

    Sobre a editora

    A experiência de leitura dos livros da editora Urutau revela um mergulho em textos densos, que transitam entre a poesia e a prosa, com forte presença de temas como a condição humana, relações afetivas complexas e a busca por sentidos em ambientes cotidianos ou simbólicos. O catálogo privilegia narrativas que exploram tensões internas, seja na intimidade da vida familiar, na investigação de mistérios urbanos ou na reflexão sobre identidades e memórias. A linguagem costuma ser elaborada, ora poética e simbólica, ora marcada por uma crueza direta, convidando o leitor a uma leitura atenta e contemplativa. Há obras que dialogam com o corpo, o desejo e a palavra, enquanto outras se apoiam em personagens femininas que desafiam estereótipos e enfrentam conflitos profundos.

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