
Título: Um abismo quase
Autor: Marcel Vieira, Marcel Vieira Barreto Silva
Sinopse: O eu-lírico dos poemas de “um abismo quase” tem o que dizer e o diz magnificamente bem. Ou seja, sem efusões sentimentais, sem borrifar as flores da retórica com o orvalho da inspiração, mas, em contrapartida, sem investir maciçamente na forma de modo a convertê-la numa espécie de conteúdo dos poemas, como o fizeram os vanguardistas mais ortodoxos. Aliás, se as vanguardas foram pródigas na adoção do discurso metalinguístico em detrimento da ”marca suja da vida”, os poemas de Marcel Vieira questionam a vida quer no seu aspecto metafísico, quer na sua feição mais prosaica, mais cotidiana, a exemplo do que ocorre no poema “domingo na praia”, que poderia resvalar para a banalidade, para o meramente trivial, não fosse o sortilégio, o poder transfigurador da linguagem. Mas a poética é, também, objeto de questionamentos do eu-lírico. A pedra sempre aparece na lírica de Marcel Vieira, mas longe de repercutir no seu discurso, tornando-o mineral, árido, asséptico, duro, eis que ela é não só amaciada, apurada, como algumas vezes antropomorfizada pela dicção desse poeta que já acrescenta e tem muito mais a acrescentar à poesia brasileira. Em suma, ainda com referência à pedra, o eu-lírico não a quer e tampouco a deseja à imagem e semelhança da pedra cabralina, “como um grão imastigável, de quebrar dente”, cuja tarefa consiste em obstruir a “leitura fluvial, fluviante”, para açular, instigar, a atenção do leitor. Diria, como já o disse a respeito da prosa de Frutuoso Chaves, que os versos dos poemas de “um abismo quase” fluem “mansos e pacíficos como rios canalizados”. Não se conclua, no entanto, que os poemas de Marcel Vieira guardem alguma consonância com o lirismo comedido, bem-comportado, com o lirismo funcionário público do poema bandeiriano. Com efeito, se o autor de “um abismo quase” não investe no experimentalismo e está longe de ser um iconoclasta, longe está do conformismo, da passividade, do academicismo, no que tange ao construto de sua poética. É um construtivista. E, como tal, funde e inter-relaciona a tradição com a renovação, o que quer dizer que não rejeita as conquistas das vanguardas, embora as incorpore parcimoniosamente, sem pirotecnias. Sérgio de Castro Pinto
Contexto da obra
Na poesia, um livro como este costuma pedir um olhar mais atento para linguagem, ritmo e imagem. “Um abismo quase”, de Marcel Vieira, Marcel Vieira Barreto Silva, publicado pela editora Editora Reformatório, em 2021 e com 130 páginas, integra a categoria Livros de Poesia. Na prática, a força do livro muitas vezes aparece no modo como ele faz a linguagem trabalhar.
Editora: Editora Reformatório
Páginas: 130
Ano: 2021
Edição:
Linguagem: pt
ISBN: 9786588091357
ISBN13: 9786588091357
Sobre a editora
Os livros da editora EDITORA REFORMATORIO convidam a uma imersão em narrativas densas, que exploram conflitos humanos profundos e dilemas existenciais. A experiência de leitura frequentemente traz personagens marcados por solidão, opressão social ou familiar, e uma busca intensa por sentido, muitas vezes ambientada em cenários que vão do urbano contemporâneo a comunidades rurais ou históricas. O tom das obras varia entre o poético e o cru, com histórias que transitam entre o realismo psicológico e a reflexão sobre temas como morte, memória, identidade e poder. O catálogo revela uma preferência por narrativas que desafiam o leitor a confrontar a complexidade das relações humanas e a fragilidade das certezas cotidianas.
